O paradoxo das viagens de negócios: cada vez mais essenciais e também mais frágeis

Riscos e resiliênciaArtigo4 de março de 2026

Um novo estudo do Grupo Zurich mostra um setor profundamente impactado pela instabilidade global, pela mistura entre vida pessoal e profissional e pela crescente ansiedade entre viajantes corporativos.
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Principais pontos do estudo

  • Quatro em cada cinco viajantes de negócios sofreram algum tipo de interrupção em 2025.
  • Mais da metade enfrentou uma emergência ou incidente sério no exterior.
  • Viajantes exigem mais apoio, clareza e segurança das empresas.
  • A forma como as organizações cuidam das viagens influencia a produtividade e até a retenção de talentos.

Executivos e equipes comerciais continuam viajando para fechar acordos e fortalecer parcerias, mas fazem isso em um cenário mais tenso. A pesquisa, realizada com 4.000 viajantes internacionais em oito países, reforça que a interação presencial segue insubstituível, embora o ambiente esteja mais desafiador.

Somente em 2025, a maioria dos viajantes corporativos passou por algum tipo de interrupção. Mais da metade lidou com situações graves, antes consideradas raras. Eventos climáticos extremos, tensões políticas, riscos cibernéticos e desgaste emocional fazem parte das viagens atuais e muitas vezes um problema desencadeia outro.

Dominic Steptoe, Diretor de Produto da BOXX Insurance, empresa global de seguros e proteção cibernética, lembra que deixar um funcionário resolver sozinho um incidente cibernético durante uma viagem aumenta o estresse e cria riscos desnecessários, tanto pessoais quanto operacionais.

Os funcionários estão em risco durante viagens de 'bleisure'?

As pressões por redução de custos e diminuição da emissão de carbono tornaram as viagens mais seletivas. Esse movimento acelerou uma mudança importante na forma como trabalho e lazer se misturam.

A prática do bleisure sempre existiu, mas o estudo mostra uma inversão curiosa. Antes, o colaborador estendia a viagem de trabalho para aproveitar alguns dias de descanso. Agora, 56% dos entrevistados afirmam planejar incluir compromissos profissionais em uma viagem pessoal.

Essa tendência, apesar de parecer conveniente, pode expor o viajante e a empresa a lacunas de cobertura. O seguro corporativo costuma ser mais abrangente, enquanto o seguro pessoal é limitado. Em viagens que misturam as duas esferas, é comum que o colaborador acabe parcialmente descoberto.

Luca Salmaso, Chefe Global de Acidentes e Saúde para Europa Continental e Canadá, reforça que é essencial verificar o limite entre a cobertura empresarial e a cobertura pessoal, independentemente do formato da viagem.

Como se preparar para viagens de negócios

O estudo mostra um dado preocupante. Mais de um quarto dos viajantes admite não saber como agir em uma emergência no exterior, número ainda maior entre os mais jovens. Em um contexto de instabilidade geopolítica e eventos climáticos extremos, isso representa uma vulnerabilidade relevante.

A falta de preparo também afeta a relação entre empresa e colaborador. 60% dos viajantes afirmam que recusariam uma viagem se sentissem que a empresa não prioriza sua segurança.

Muitas organizações já tratam a gestão de riscos como investimento estratégico. Para Adrian Leach, CEO da World Travel Protection, resiliência não é um produto, mas um comportamento organizacional. Isso inclui revisar políticas, ampliar coberturas, apoiar saúde mental e garantir que cada colaborador entenda como agir em diferentes cenários.

As viagens de negócios se tornaram mais híbridas, dinâmicas e imprevisíveis. Ainda assim, muitas empresas seguem apoiadas em modelos antigos de proteção, que não acompanham a complexidade atual.

Salmaso lembra que ainda existe um grupo significativo que depende apenas de seguros básicos, como os oferecidos por cartões de crédito, que não cobrem diversas situações importantes.

O grande desafio é saber se a estrutura corporativa conseguirá evoluir na velocidade necessária. A jornada se tornou mais complexa do que nunca e exige uma abordagem muito mais integrada entre segurança, bem-estar e gestão de riscos.

Como resume Leach, para o viajante o risco é imediato, mas com uma estratégia proativa ele consegue antecipar problemas e ter uma experiência mais segura e amparada.