Por que a infraestrutura crítica é uma bomba‑relógio

Riscos e resiliênciaArtigo16 de janeiro de 2026

A infraestrutura crítica segue perigosamente negligenciada. Mesmo diante de ameaças como clima extremo, ataques cibernéticos e conflitos, o Relatório Global de Riscos ainda coloca as interrupções nesses sistemas entre as preocupações menos priorizadas. É um alerta claro de que líderes precisam agir com urgência.

Peter Giger, Diretor de Riscos do Grupo Zurich

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  • A infraestrutura crítica continua altamente vulnerável aos principais riscos apontados no Global Risks Report 2026, incluindo clima extremo, conflitos entre Estados e ameaças cibernéticas.
  • Apesar disso, o relatório revela uma lacuna preocupante: “interrupções na infraestrutura crítica” aparecem surpreendentemente baixas, ficando apenas na 23ª posição para os próximos dez anos.
  • O grande desafio é reforçar as bases que sustentam nossas economias e sociedades.

O mundo está entrando em uma “era da competição”. Essa é a conclusão do Global Risks Report (GRR) 2026, do Fórum Econômico Mundial. Conflitos armados entre Estados, insegurança cibernética e eventos climáticos extremos compõem um cenário de riscos interconectados, enquanto as instituições responsáveis por gerenciá-los lutam para acompanhar seu ritmo.

Dentro desse cenário, riscos que afetam diretamente infraestruturas críticas — como energia, abastecimento de água e sistemas digitais — são, na minha opinião, frequentemente subestimados. Em geral, só recebem atenção quando um grande incidente já ocorreu.

O relatório até registra algum aumento de consciência sobre esses desafios, mas muitas vulnerabilidades continuam passando despercebidas. Na pesquisa com especialistas, as interrupções em infraestrutura crítica ficaram apenas na 22ª posição para os próximos dois anos e voltam a aparecer em 23º lugar quando se olha para os próximos dez. É um resultado muito baixo para algo tão fundamental ao funcionamento da vida moderna. Quando a infraestrutura falha, tudo o que depende dela corre o risco de falhar também.

O impacto do clima extremo

Mesmo com queda no ranking, o clima extremo continua sendo uma das principais preocupações na próxima décadaA mudança climática já está testando infraestrutura crítica de maneiras que não eram previstas quando muitos sistemas foram projetados. Redes elétricas enfrentam uma demanda crescente por resfriamento enquanto ondas de calor reduzem a eficiência e sobrecarregam equipamentos. A energia hidrelétrica lida com riscos nas duas pontas: inundações podem danificar estruturas, ao mesmo tempo em que secas severas podem interromper completamente a geração.

Infraestruturas costeiras, especialmente em grandes cidades marítimas como Singapura, Jacarta e Manila, estão entre as mais expostas ao aumento do nível do mar e às inundações. Essas cidades são polos econômicos fundamentais, e qualquer interrupção pode se espalhar rapidamente por cadeias globais de suprimentos e mercados financeiros.

Na linha de frente

A infraestrutura também permanece um alvo estratégico em situações de conflito. Cabos submarinos podem ser cortados, satélites podem ser bloqueados e drones podem colocar instalações críticas em risco. Recursos essenciais como água, energia e alimentos podem ser utilizados como instrumentos de pressão geopolítica.

A digitalização intensifica esse cenário, transformando-o em uma ameaça híbrida. A cibersegurança está entre os dez maiores riscos da próxima década. Infraestruturas conectadas, como redes, portos e oleodutos, ampliam a superfície de ataque para criminosos e agentes estatais. Um ataque bem-sucedido a um sistema energético ou a controles de tráfego aéreo pode gerar efeitos em cascata que se espalham muito além do ponto inicial, intensificando outras crises físicas ou geopolíticas.

A crise silenciosa de infraestrutura

Além dos riscos mais dramáticos, o relatório revela outro problema grave: a falta de atenção a ameaças sistêmicas mais discretas, porém igualmente destrutivas. Entre elas está o desgaste lento e constante da infraestrutura crítica, que em muitos casos demanda reformas profundas apenas para manter sua funcionalidade.

Um exemplo são as redes elétricas. Em grande parte dos países da OCDE, elas são antigas, operam com recursos limitados e enfrentam dificuldades para serem modernizadas ou expandidas diante da crescente demanda.

Parte desse problema está ligada a outro risco frequentemente subestimado: a falta de capacidade fiscal. Riscos econômicos não aparecem entre os dez principais riscos globais, seja no curto ou no longo prazo, mesmo com governos enfrentando níveis elevados de dívida. Na Pesquisa de Opinião Executiva do WEF, muitos líderes empresariais demonstram preocupação com a possibilidade de uma recessão.

Quando a economia enfraquece, fica mais difícil gerenciar todos os demais riscos, inclusive aqueles ligados à infraestrutura crítica. A capacidade econômica não é apenas o meio para financiar manutenção e atualizações; ela funciona como amortecedor, permitindo reparos, investimentos preventivos e impulsionando transições climáticas e digitais. Da mesma forma, a infraestrutura crítica está exposta a diversos riscos, mas também é o que sustenta nossa capacidade de lidar com um conjunto ainda mais amplo de ameaças.

A necessidade de uma visão holística

Parte do desafio está na forma como pensamos sobre risco. O foco constante na crise imediata frequentemente leva governos e organizações a adiarem medidas preventivas, como manutenção. As análises costumam ser isoladas: clima e sustentabilidade financeira, por exemplo, muitas vezes são tratadas como temas separados. Mas o espectro de riscos globais é interdependente. A situação da infraestrutura crítica deixa isso muito evidente. Tensões geopolíticas, disrupções tecnológicas e instabilidade social convergem sobre os mesmos sistemas. Uma rede elétrica pressionada por ondas de calor também pode ser alvo de ataques cibernéticos. Um porto atingido por enchentes pode gerar rupturas nas cadeias de suprimentos e estimular tensões sociais. Finanças públicas fragilizadas reduzem a capacidade de resposta a qualquer um desses desafios.

Em um cenário de crescente desordem global, o instinto natural é concentrar esforços apenas na crise mais recente. No entanto, o verdadeiro desafio — e a grande oportunidade — é ampliar o olhar, entender como os riscos se reforçam mutuamente e desenvolver soluções que aumentem a resiliência em várias frentes ao mesmo tempo. A estabilidade de nossas economias e sociedades depende disso. Infraestrutura crítica é um risco central. E precisa ser tratada dessa forma.

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