O valor da saúde mental: onde o peso realmente está e por que isso importa

Gente e Bem-EstarArtigo28 de maio de 2026

Nossa pesquisa mostra que os maiores custos das condições de saúde mental não são contemplados nos orçamentos de saúde. Eles aparecem antes: na perda da qualidade de vida, nas famílias absorvendo o cuidado e nos locais de trabalho gerenciando interrupções.

Por Alison Martin, CEO, Vida, Saúde e Distribuição Bancária, do Grupo Zurich

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A saúde mental raramente se manifesta em um único momento dramático. Na maioria das vezes, seu impacto se acumula de forma silenciosa, em dias de concentração reduzida, semanas de rotina fragmentada e meses de distanciamento do trabalho, amigos e da vida cotidiana. Com o tempo, esse afastamento gradual reduz oportunidades, tanto no âmbito profissional quanto pessoal.

Nos últimos anos, a conscientização sobre saúde mental avançou de forma relevante. Conversas antes evitadas passaram a ocupar espaços em empresas, escolas e famílias. Esse progresso, no entanto, veio acompanhado de um cenário mais complexo: aumento da prevalência, lacunas persistentes no acesso ao cuidado e maior pressão sobre mercados de trabalho já impactados por mudanças demográficas e desafios fiscais.

Por que medir faz diferença

O que escolhemos medir define o que priorizamos. No campo da saúde mental, grande parte do debate ainda se concentra nos aspectos mais visíveis: diagnósticos, acesso ao tratamento e gastos diretos com saúde. Essa abordagem, embora importante, é insuficiente para capturar onde ocorrem as maiores perdas.

O estudo “O Valor da Saúde Mental” (The Value of Mental Health) parte de uma premissa diferente: mais do que contar quantas pessoas são afetadas, é necessário dimensionar os impactos cotidianos para indivíduos, economias e sistemas de proteção social. Isso inclui custos frequentemente invisíveis aos sistemas formais, como perda de qualidade de vida, redução da produtividade e o peso do cuidado informal.

Ao analisar países com contextos distintos como Austrália, Chile, Alemanha, Malásia, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido, o relatório aponta um padrão consistente: os maiores custos associados à saúde mental acontecem fora dos orçamentos tradicionais de saúde.

Onde o peso realmente está

O impacto começa no indivíduo. Em média, pessoas com condições de saúde mental perdem o equivalente a cerca de dois meses de qualidade de vida por ano, considerando limitações funcionais distribuídas ao longo do tempo. Não se trata, necessariamente, de afastamento total, mas de redução contínua da capacidade de funcionar plenamente.

Em escala populacional, essas perdas superam significativamente os gastos com cuidados formais. Isso reforça que saúde mental não é apenas uma questão de tratamento, mas de funcionamento diário e bem-estar.

Antes mesmo de atingir os sistemas formais, o peso recai sobre famílias e comunidades. Em diversos países analisados, o cuidado informal, prestado por familiares, representa um dos principais e menos visíveis pilares de suporte. Em alguns casos, seu valor econômico estimado ultrapassa os gastos públicos com saúde mental.

No mercado de trabalho, o impacto vai além das ausências. A maior perda está na dificuldade de permanência e participação. No Reino Unido, por exemplo, 53% das pessoas com condições de saúde mental estão empregadas, contra 82% entre aquelas sem diagnóstico, uma diferença expressiva que se repete, em diferentes intensidades, em outros países.

Um dado particularmente crítico é que esses padrões têm surgido cada vez mais cedo. Em muitos mercados, diagnósticos aparecem ainda na adolescência e início da vida adulta. O reconhecimento precoce é positivo, mas, sem suporte adequado nas transições para o mundo do trabalho, o risco de desengajamento prolongado aumenta.

O que isso significa para os empregadores

Empresas não são responsáveis por “resolver” a saúde mental, mas são frequentemente o primeiro ponto onde seus efeitos se tornam evidentes. Quedas de desempenho, mudanças de engajamento e dificuldades de reintegração são sinais que surgem antes do acesso ao cuidado especializado, e muitas vezes após os primeiros alertas.

Por isso, o timing importa.

O papel das organizações está na construção de conexões mais rápidas com suporte adequado, reduzindo o risco de que dificuldades temporárias evoluam para afastamentos duradouros. Na prática, isso envolve ampliar o acesso a apoio psicológico, integrar soluções ao ambiente de trabalho e estruturar processos consistentes de retorno após afastamentos.

Transformar visibilidade em ação

A maior visibilidade da saúde mental é um avanço importante, mas por si só, não evita perdas. O próximo passo é transformar esse reconhecimento em ação efetiva: intervenções mais precoces, suporte mais integrado e ambientes que favoreçam a permanência e o desenvolvimento das pessoas.

“O Valor da Saúde Mental” (The Value of Mental Health) convida a uma reflexão essencial: estamos medindo o que realmente importa, e, mais importante, estamos agindo sobre isso?

Porque saúde mental não é episódica. É um elemento contínuo da vida, e quanto antes for cuidada, maiores são as chances de preservá-la.

Brasil: uma leitura local da Zurich

A partir das conclusões do estudo global, a Zurich Brasil traz uma análise do cenário brasileiro, marcado por aumento de afastamentos e novas exigências regulatórias

No Brasil, a discussão sobre saúde mental no trabalho ganha contornos ainda mais urgentes. O país combina aumento expressivo nos afastamentos por transtornos mentais com uma mudança regulatória relevante: a atualização da NR-1, prevista para maio de 2026, que passa a exigir a inclusão de riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

Dados da Previdência Social indicam que o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais e comportamentais em 2025, o maior volume da última década. O número reflete não apenas o agravamento do cenário, mas também uma mudança cultural importante, com maior reconhecimento e notificação desses casos.

Para Ana Puga, especialista em saúde corporativa e cultura organizacional, o país vive um momento de transição:

“Há um avanço claro na conscientização, mas a maturidade das empresas ainda é desigual. Durante muito tempo, saúde mental foi tratada como uma questão individual, quando ela também está diretamente ligada à forma como o trabalho é estruturado, às relações e aos mecanismos de suporte disponíveis.”

Segundo ela, a nova NR-1 funciona como um acelerador dessa agenda ao exigir que riscos psicossociais sejam tratados de forma contínua e estruturada, e não como iniciativas isoladas. Um dos principais desafios, no entanto, está na interpretação do que isso significa na prática.

“Muitas organizações ainda confundem a gestão de riscos psicossociais com pesquisas de clima ou ações pontuais de bem-estar. Isso não é suficiente para atender a exigência regulatória nem para lidar com a complexidade do tema.”

Dentro das empresas, esse movimento já começa a se traduzir em iniciativas mais integradas. Na Zurich Seguros, a pauta vem sendo trabalhada como parte da estratégia de cultura organizacional e desenvolvimento de lideranças.

Segundo Mônica Matias, superintendente de Talento & Cultura da companhia, o foco está em sair da lógica reativa:

“Saúde mental precisa ser tratada de forma consistente e conectada ao ambiente de trabalho. Não se trata apenas de oferecer apoio quando o problema aparece, mas de construir relações mais saudáveis, fortalecer o diálogo e preparar lideranças para lidar com situações complexas no dia a dia.”

Entre as iniciativas estão ações preventivas, programas de desenvolvimento humano, fortalecimento dos canais de escuta e capacitação de lideranças para conduzir conversas difíceis, um ponto crítico na identificação precoce de sinais de risco.

O cenário brasileiro evidencia um ponto central destacado pelo estudo global: o maior impacto da saúde mental não está apenas no custo direto ou nas licenças médicas, mas na capacidade de permanência no trabalho. A dificuldade de retenção e reinserção tende a se tornar um dos principais desafios para empresas nos próximos anos.

A combinação entre pressão regulatória, aumento de casos e baixa maturidade estrutural cria um ambiente que exige respostas mais rápidas, e, sobretudo, mais consistentes. Nesse contexto, saúde mental deixa de ser um tema periférico e passa a ocupar um lugar estratégico nas organizações brasileiras.